Thursday, December 17, 2015

Sobre o Livro Em um Mapa sem Cachorros







JULIO ALMADA:

ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE, A POESIA



A poesia surgiu em tempos imemoriais e segundo a história do Ocidente teria se desenvolvido primeiramente na Grécia. Ela é uma forma de cantar a memória dos homens, de exprimir sua alma, suas emoções, suas visões de mundo. Toda vez que surge um novo poeta , o cantar da Humanidade se renova. Este é o caso de Julio Almada. Ele transita entre a tradição da poesia do séc. XIX ( Baudelaire) até chegar à poesia moderna de nossos tempos. Ele dialoga em seus versos com poetas do porte de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mario Cesaryni. Utilizando-se do manancial dos poetas ( as metáforas , rimas, aliterações, assonâncias, anáforas), constrói novas sonoridades e novas formas imagéticas em seus poemas.
T. S. Eliot já dizia num famoso ensaio sobre poesia e sociedade, que a função social do poeta é renovar sua língua, é levar a seu povo uma nova forma de dizer as palavras, fazer com que surja uma nova forma de escrita e expressão e assim, manter a língua materna ( e por que não dizer, a língua dos homens), cada vez mais viva. Pois bem, Julio Almada cumpre com êxito essa função: ele traz à língua portuguesa, novos sons, novos ritmos, novas imagens. Fala-nos em temas recorrentes não só em toda a poesia do Ocidente como também na poesia contemporânea: o amor, a morte, a passagem do tempo, a brevidade da vida, o dilaceramento entre corpo e alma, a fragmentação do indivíduo, a falta de sentido da vida. Através de seus poemas podemos vislumbrar novas paisagens de nossa própria humanidade, de nossa temporalidade e fragilidade ante o caos da realidade moderna. Podemos olhar para o amor com olhos de quem já viu o mundo ou de quem o experimenta pela primeira vez. Julio leva-nos aos extremos da alma, do dilaceramento das emoções, até encontrarmos apenas o vazio, ou o que sobra dele: a linguagem poética. É através da poesia que ele descortina nossa própria essência e dialoga com a tradição. Retomando Baudelaire e seu pessimismo, sua visão estética, Julio nos diz: “ se eu fosse raso e tivesse olhos / Lago com as mãos poluídas / Desenhava chuvas ácidas / em teu corpo em frangalhos”. Junto com a epifania daquilo que foge à estética clássica para formar a linguagem da modernidade, Almada nos propõe um novo dizer, um novo ritmo, um novo olhar. É com este olhar diverso que ele fala da falta, da dor, das perdas que o coração é obrigado a carregar em si. Assim, o poeta diz em seus versos: “Há uma meia-tinta na palidez hoje / e a dor para doer fala / um idioma estranho/ já não sei nada do que falta / Já me falta saber tudo. ” Falta saber quem somos, para onde vamos, e o poeta trata de inquietar-nos ainda mais com essas questões. Ele não veio trazer respostas, ele veio fazer-nos a pergunta que não quer calar, a pergunta que não ousamos fazer a nós mesmos.
Como bom poeta moderno, ele retoma a linguagem e faz meta-poesias ou seja, poemas que falam sobre o próprio fazer poético como acontece no poema que dá título ao livro ( em um mapa sem cachorros): “o meu verso é dessa / forma: fugidio, inexato / E se o verso me verte algo / me exaspera ser: enfático / sou a metade do caminho/ de um fim que nunca sabe / a que veio, onde termina.” Neste mesmo poema ele torna a dialogar com a tradição, desta vez com Fernando Pessoa e sua poesia “Autopsicografia”: ( o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente ). Julio retoma o tema e escreve à sua maneira o desabafo do poeta: “Tudo o que eu antes dizia / hoje me olha estupefato/ frangalhos meu sonho inútil / outrora meus simulacros / nem fingir mais eu sei .” O poeta é aquele que simula as emoções no papel, e que será dele se já fingir não sabe mais? Ainda assim, ele nos responde valendo-se novamente de Fernando Pessoa, de que o poeta afinal não é um, ele é vários: “os outros e os outros / em mim combatem: / a luz de minha sombra.” Vemos aí, o dilaceramento do eu, a fragmentação do indivíduo na idade moderna, a falta de unidade que a vida nos dias atuais impôs à psique humana. Questões que Fernando Pessoa abordou com maestria como nenhum outro poeta antes dele e que Almada traz à tona de forma original. Como Pessoa ele também trabalha com imagens marítimas que trazem em si a questão da saudade e da distância: “o barco de pedra/ tem sonhos de mar/ de água entranhada / de alga no olhar. ”
Mas Julio não é apenas um nostálgico, ele também sabe como falar do amor: nisso, torna a dialogar com outros poetas como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira quando fala: “meu coração tem dorso de pedra / navega águas para esconder-se / esfrega com frio os olhos de relva / afogado em sua própria sede.” Ou quando fala-nos de um amor dissolvido: “lavei o rosto com a areia / testemunha fria e morna/ da minha morte de água.” Estes poetas ficam ainda mais evidentes nos versos de poemas como Simbioses e Historinha que reproduzimos a seguir:
“A pedra ruborizada / me amedrontou / Eu que medo / não tinha de nada / tive medo de água / quando a pedra me tocou.” Ou ainda “comprei uma flor assassina / (...) E hoje a noite é longínqua/ E hoje a flor é incerta.” Incerta como a vida, a flor assassina deste amor nos remete imediatamente à flor presa no asfalto que Drummond cantava em seus versos. Somos lançados de volta à fragilidade da vida e dos afetos, à imagem quase onírica do poema. Essas imagens que o modernismo e mais tarde o surrealismo utilizaram tanto, são renovadas na poesia atualíssima de Julio Almada. Assim, ele faz-nos lembrar também do poeta português Mario Cesaryni por ter como ele, versos em que o leitor é levado a imaginar metáforas de sonho. São traços do surrealismo que fazem com que esses poemas tornem-se ao mesmo tempo abertos à interpretação dependendo de quem os lê, e fechados dentro da linguagem. Um desses exemplos encontramos no “Poema para ser breve”: “braços ruidosos como laços / olhos com a pele de uma lâmpada/ o que era eu: um adeus breve / o que eras tu: nova mariposa.”
Vemos aí o uso de imagens-símbolos em que o leitor pode re-escrever o verso à sua maneira, sob sua perspectiva. Paul Zumthor costumava dizer que somente a poesia era capaz de fazer com que o leitor “ouvisse” as palavras, pois na arte poética, as palavras têm “carne”, têm voz, fazem jogos acústicos, têm sonoridade própria. Ao ler os versos de Almada, escutamos seu grito, ouvimos sua dor, o pulsar de um coração descompassado e vário. Ao terminar seu livro, temos a certeza de que a vida é transitória, a poesia, não. O poeta morrerá um dia, mas a poesia apesar de “morrer centenas de vezes” não irá “morrer sequer um dia”.


Lívia Petry
Lívia Petry, Doutora em Literaturas Portuguesa e Luso-Africanas pela UFRGS, escritora, poeta, contadora de histórias.


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