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Serpente

O nosso amor era vertigem
Pantanoso e desesperado
Fez do fel o doce
E do desfigurar a esfinge
Os teus cabelos alisavam meu desgosto
A língua palpitante e confundida
Bebeu do todo embriagada
Tempestade incessante as veias
A tua face nunca ruborizada.

Julio Almada, Do livro Hora Tenaz
Image
lanterneiro

é verdade,
a vida é um troço de doer.

dói, meu caro,
dói, sim senhor, dói
como um guarda-chuva aberto
dentro do estômago,
como uma ave no éter do petróleo,
como um galo no ártico.

dói como doem as pevides
dentro da fruta,
como dói o corpo
dentro do quarto,
como deus na eternidade
das coisas que nunca existiram.

atino em eufórica
sensação de escombro:
estar vivo é mais importante
do que ser feliz!

e não obstante sermos –
entre a dor da morte
e a dor
do parto –
este buquês de dores,

jamais aceitaremos
o éter na veia,
o vaso de águas enfermiças,
as roças de lápides e relógios,
o repouso de quem cortou os pulsos.

nossas vísceras são focos de incêndio.
e se algum lugar
de nossa carne transparente
erguermos uma nave e um rito,
não o faremos para o sofrimento,

senão para que, antes de nos
espojarmos nos degraus,
brindemos
a nossa próxima
alegria

Rodrigo Madeira do Livro Sol sem Pálpebras