Tuesday, May 29, 2007




Poema do Esconde-Esconde

Para Roberto Portugal Alves(In Memorian)
1

Ensina-me a calar.
Ensina-me na janela do dizer
O que se vê
E faz cessar
O que se fala.
Ensina-me a esquecer.
Ensina-me
A desfazer
A sina de não ser
O que eu sou.

2

A sepultura que te mostra.
A sepultura que te esconde.
A vazia mesa posta.
A loucura da minha fronte.
A vida e sua morte inesperada.
A morte e sua vida desesperada.

3

O recinto em que me inventas
É o intento de conter-me
Nesta flâmula de tempo
Em teus lábios cinzentos.



4

Lua transposta: Mar refletido, semente de pedras,
Lagos infindos, verbos inertes, pó na estrada.
Lua transposta e do medo, as garras.
O medo transposto: metamórfico.



5

Separo os grãos do prever do meu destino
Separo o fraco café do leite
Me separam, a água e o azeite
Me invento no mundo, clandestino.

6

Poesia urbana: veloz, dissipada, bípede, infame,
Imprópria, inata, ciliar, banal, morrendo de
Muitas mortes.

7

A página em branco contém:
O desejo franco de possuir datas.
Não um número e uma barra e outro número
Qualquer e barra e o ano com quatro
Números quaisquer.
A página esbranquiçada
É a vela em riste
Do meu corpo revolto
Em águas de seu mar.

É um nunca mais ser algo,
Mais do que é
Nem algo menos do que
Dizemos:
Assim Eu sou.
A data ansiada
É a por nós nomeada:

Hoje
Sempre
O Eterno da linha esticada
Pelo horizonte.


Julio Almada, Do Livro Hora Tenaz

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